Histórias de Café

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“Um tímido café”

Era uma esplanada ao fim da tarde, numa altura em que só as tardes tinham fim. A nossa vida era infinita e a nossa esperança ainda era maior.

Encostávamo-nos para trás nas esplanadas para ver o mundo de longe, e fazíamos render o café, porque a falta de dinheiro era o único dos nossos problemas.Trocávamos palavras, umas doces, umas cómicas e, por fim, trocávamos silêncios. Olhávamos em volta para ver o que acontecia, pois nesse tempo as coisas aconteciam à nossa volta, não à volta dos nossos telemóveis.

Foi num desses olhares que vimos um casal de ainda não namorados. Dá para ver se já se beijaram ou ainda não, mais tarde até dá para ver que já estão fartos de se beijar.

Ele estava com aquela timidez que se impõe. Ela comaquele ar de gozo, com que as raparigas se põem nessas alturas. Só que o desgraçado gaguejava, era daqueles que até a dizer “olá” à mãe gaguejava, naquela situação emitia sons de vez em quando.

Toda a esplanada estava suspensa naquele pedido, as mesas em silêncio a torcer pelo rapaz.
-Vá lá tu consegues!
Era a nossa voz interior. O empregado, de bandeja debaixo do braço, aproximou-se, porque, assim podia assistir mais de perto.

-“QueQueQueQue…” – começou a sair da boca do rapaz.
Ela mexia no cabelo com aquele ar desentendido que as mulheres fazem para eles ainda parecerem mais parvos.

-“QueQueQueQue…resresres…” – Ia acontecer uma cena de filme, íamos todos aplaudir quando ela dissesse que sim. Pelo menos eu já tinha decidido que ia.
-“QueQueQueQue…resresres…café?” – Não gaguejou no café. E afinal foi só isso –“Queres café?”

O empregado da bandeja, foi de todos nós, o que mostrou maior desilusão, batendo com a bandeja na mesa da esplanada. Todos os outros disfarçaram a desilusão.

Não sei se ele teve outra oportunidade, ou se continua a beber tímidos cafés, que a timidez lhe põe na boca. Eu nunca esqueci a história daquele que ainda era mais tímido que eu.

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