Histórias de Café

“A Arte de Tomar Café”

Lembro-me principalmente do cheiro. Aquele cheiro forte e característico do café acabado de tirar, a espiralar por ondas de vapor até aos óculos do meu pai deixando-os, para o meu absoluto divertimento, completamente embaciados. Acontecia todas as vezes que o via beber café, e de todas as vezes me fazia rir como se fosse a primeira vez que olhava para mim – semblante subitamente sério e os óculos quase opacos – até desmanchar a pose e rir comigo. Lembro-me, também, de me sentir uma pessoa mais importante, mais crescida, por fazer parte daquele ritual.

Como ainda não me deixavam beber aproveitava para decorar todos os passos cuja repetição me deleitava; ir ao mesmo café na Praça do Giraldo em Évora, pedir um café (pingado, se faz favor!), abanar a saqueta do açúcar entre os dedos para o concentrar todo numa das extremidades, abrir a saqueta, deixar cair apenas metade do conteúdo, remexer exatamente quatro vezes com a colher, fazê-la tilintar no rebordo da chávena, beber, esperar que os óculos desembaciassem.

Todas as vezes era o mesmo metódico processo, e de todas as vezes eu observava com atenção, tentando absorver os mais ínfimos detalhes e desejando ardentemente poder também eu pedir um café. Pingado. Lembro-me, por fim, do dia em que o meu pai ao entrar comigo no café me perguntou, com um sorriso, se eu queria um garoto. “Um garoto?” perguntei, compreensivelmente confuso. “É uma espécie de café”, respondeu, já adivinhando a minha reação. E os meus olhos devem ter brilhado de alegria, e uma pontinha de orgulho, porque lembro-me da excitação que percorria o meu corpo quando o meu pai se riu e pediu um garoto junto com o café habitual.

Quando chegaram as duas chávenas à mesa e vi que havia mesmo chegado, finalmente, a minha vez, senti o peso da responsabilidade e concentrei-me para seguir todos os passos que tinha aprendido. Meia saqueta de açúcar, quatro voltas com a colher, tlim, tlim. E pensei que, enfim, era naquilo que consistia ser adulto. Ser adulto era sentar-me a uma mesa, depois do almoço, a saborear um café com o meu pai. Mal sabia eu que, na realidade, não estava assim tão enganado.

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