Histórias de Café

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“Café Brasil, uma história banal”

No ano de 1964, os meus pais (profissional de seguros, o meu pai; “empregada dos CTT” – como se dizia na altura – a minha mãe) não tinham dinheiro para comprar uma televisão.

Assim, aos fins-de-semana, costumávamos ir ao Café Brasil, em Queluz, para “ver televisão”, mas não até muito tarde porque “o menino só tem cinco anos e não se pode deitar tarde”. Naquele Domingo, 2 de Fevereiro de 1964, senti que havia alguma coisa no ar. A minha avó e a minha mãe demoraram mais tempo que o costume “a vestirem-se” e o meu pai (na época, com trinta e cinco anos) teve mais tempo para ler o “Diário Popular”,“enquanto esperava pelas senhoras”.

Finalmente, a minha mãe (na altura, com trinta e dois anos) apareceu, bonita como sempre, mas, naquele noite, pareceu-me ainda mais bonita. De seguida, surgiu a minha avó (paterna) que, “também por temer muito a Deus” e por respeitar a memória do meu avô, desde 1951 (ano do falecimento daquele) que
só se vestia de negro.

Ambas eram, de facto, muito bonitas e eu gostava, especialmente, quando a minha avó me chamava “querido netinho”. O meu pai fez as ”últimas recomendações” que, como sempre, incluíam não dar ouvidos aquilo que diziam
os homens que, no Café Brasil, estavam nas “mesas dos solteiros”. Nos fins-de-semana, o sr. Manuel, dono do Café Brasil, dividia a sala em duas: de um lado, ficavam as “mesas dos solteiros”; do outro, ficavam as “mesas das famílias”.

Parece que o sr. Manuel também fazia recomendações aos clientes das “mesas dos solteiros”. Tais recomendações costumavam incluir frases como: “Oh António, se hoje te embebedas, como a semana passada, vais para o olho da rua”.

Ao ouvir o sr. Manuel, o António encolhia-se envergonhado (e porque a família Matos – que já tinha chegado era a família do chefe da Polícia de Queluz). Quando chegámos, o sr. Manuel (que tinha “muita consideração pelo sr. Pedro”, o meu pai, porque este dava explicações de francês ao Luís, o filho do sr. Manuel) estava à porta, como se estivesse à nossa espera e, dirigindo-se ao meu pai, disse-lhe: “Hoje, como é um dia especial, reservei-lhes a melhor mesa”.
De facto, foi da melhor mesa do Café Brasil que assistimos aquele programa de televisão.

O final foi uma espécie de prenda antecipada para a minha avó (que iria fazer sessenta e cinco anos, dois dias depois): o António Calvário ganhou o primeiro Festival da Canção Nacional, com o tema “Oração” (nada mais apropriado para alguém tão religioso como a minha avó Clotilde).

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