Histórias de Café

“Café ao domicílio”

Aos fins-de-semana, a seguir ao almoço, era comum a minha mãe ficar, subitamente, cheia de sono. Tinha trabalhado a manhã inteira, preparado e desfrutado de uma boa refeição, com a família. Só que, terminada a sobremesa, o corpo amolecia, a cabeça teimava em inclinar-se para a frente e as pálpebras começavam a pesar… Antes de adormecer, ela tinha apenas tempopara me pedir, com urgência: – Filha, vais buscar um café à mãe?!…

É que a minha mãe não ia ao café. Era o café que, diga-se, ia até ela. Sem grande alternativa, e deparada com a necessidade de a ajudar a libertar-se daquela repentina moleza, eu procurava o copo cor-de-laranja (que, mesmo depois de lavado, cheirava sempre a café), tirava quarenta e cinco escudos da sua carteira, calçava as sandálias e punha-me a caminho.

O estabelecimento da Dona Ana, um pequeno café e mini-mercearia mesmo ao lado da nossa casa, estava quase sempre aberto. Eu entrava, dizia “Boa tarde” a todos, parava algum tempo em frente à arca frigorífica dos gelados. Passava pelas caixas empilhadas de bacalhau, e seguia, depois, para o cantinho esquerdo do balcão. Assim que podia, quando terminava de servir algum cliente, a Dona Ana vinha ter comigo. Sem muitas palavras, mas sempre com um sorriso.

Embora ela já soubesse bem ao que eu vinha, eu dizia, em voz alta, para que não houvesse engano:
– Era um café cheio, PARA A MINHA MÃE, se faz favor.
Não fossem os outros clientes (ou, até, a Dona Ana!) pensar que o café era para mim. Nem pensar! Eu era apenas uma criança. A minha mãe, por outro lado, era quem precisava daquela poção mágica que lhe devolvia a energia para continuar com os afazeres do dia-a-dia. E eu estava só a prestar-lhe um recado. Uma espécie de “serviço de café ao domicílio”.

Não fossem os outros clientes (ou, até, a Dona Ana!) pensar que o café era para mim. Nem pensar! Eu era apenas uma criança. A minha mãe, por outro lado,
era quem precisava daquela poção mágica que lhe devolvia a energia para continuar com os afazeres do dia-a-dia. E eu estava só a prestar-lhe um recado. Uma espécie de “serviço de café ao domicílio”.

Sem pressas, a Dona Ana servia-me o café no copo cor-de-laranja, punha a tampa, e colocava, em cima dela, um pacote de açúcar. Depois, avisava:
– Cuidado, Sofia, que está quente!

Eu acenava que sim, tirava as moedas do bolso e pagava. Depois, agradecia, agarrava no copo, e caminhava, de volta a casa, lentamente e com atenção para não me queimar ou derramar a bebida pelo caminho.

A chegada do café a casa era uma alegria. A minha mãe abria, imediatamente, a tampa, e o cheiro a café espalhava-se, como um bálsamo, pela cozinha. A seguir, e ainda sentada à mesa do almoço, ela saboreava, com deleite, aquela bebida quente e áspera. No fim, já com mais energia, dizia, satisfeita:
– A Dona Ana sabe tirar um bom café!

Eu sorria, sem perceber como alguém podia gostar de beber assim algo tão amargoso, e, ainda por cima, sem usar açúcar! Naquela altura, eu não sabia que, vinte e muitos anos mais tarde, aquele pequeno café que fez parte da minha infância, e também a Dona Ana, existiriam, apenas, na minha memória. Estava longe (tão longe!), de imaginar que, a muitos quilómetros de distância da casa e do café que me viram crescer, seria, um dia, eu, a “mãe que bebe café sem açúcar”, e que, enquanto a filha dorme, escreve, nostálgica, esta pequena história de café.

Deixe uma resposta

Close Menu