Histórias de Café

“Café com história”

Cheguei a Portalegre há quarenta anos com outros actores para criarmos uma estrutura profissional de Teatro. Era a descentralização teatral a chegar ao Alto
Alentejo. Aqui fixados iríamos levar o teatro a todo o distrito, às mais recônditas aldeias, com regularidade,ao longo de cada ano.

Após o almoço, tinha por hábito ir tomar café ao Alentejano, àquela hora bastante frequentado. Sentava-me sempre à mesma mesa, tendo dali uma visão ampla
de todo o espaço, dos clientes, da movimentação dos empregados, de quem saía ou entrava. Um dia reparei numa jovem mulher, de cabelos negros e lisos, acompanhada por uma outra a dirigirem-se para uma mesa no lado oposto aquele em que me encontrava. Trazia uma samarra com uma pele de raposa na gola, protegendo-a daquele frio de Dezembro.

Nos dias seguintes dei por mim a ansiar a sua chegada. Subitamente, deixou de aparecer. Estaria doente? A cada dia que passava sem a ver ficava mais apreensivo, conjecturando as mais diversas hipóteses. Duas semanas mais tarde voltou e com ela a minha boa disposição. Entretanto, a preparação do espectáculo de estreia do grupo prosseguia. Como precisávamos de projectores dirigi-me ao FAOJ, um organismo estatal de apoio a associações de juventude. Ao chegar à secretaria a minha respiração e o meu coração entraram em reboliço: ali estava ela e a colega que a acompanhava no Alentejano. Tentei que o turbilhão interior em que estava não afectasse o meu diálogo com ela. Depois entreguei-lhe a carta, dirigida ao Delegado, a solicitar o empréstimo.

Agora sabia onde trabalhava, e logo numa Instituição a que tínhamos necessidade de recorrer para desenvolvermos o nosso trabalho. Saí de lá a pensar numa estratégia para me aproximar dela. No dia seguinte voltei lá para saber se o nosso pedido já tinha sido deferido. Quando obtive a resposta pretendida a timidez não me deixou dizer-lhe aquilo que trazia em mente, e retirei-me. Ao descer as escadas, parei.

Voltei-me para subir. Hesitei. Subi lentamente e a transpirar. Ao chegar ao patamar lembrei-me daquele receio que tive em criança quando quis mergulhar na piscina, na parte onde não tinha pé. Habitualmente, nadava junto à margem, com a segurança de poder agarrar-me ao rebordo da piscina. Superei o medo, atirando-me de repente. Por isso, voltei decidido ao balcão da secretaria e perguntei-lhe se me podia ajudar a traduzir uns scketches de palhaços de um livro de Tristan Rémy. Combinámos encontrar-nos no dia seguinte, sábado, após o almoço, no Café. À hora combinada, chegou. Trazia o dicionário, eu já tinha o livro sobre a mesa junto à chavena do café. A tradução, essa nunca aconteceu. Passámos a tarde a conversar.

Hoje, continuamos a frequentar o Alentejano, a tomar o nosso Café Delta, por vezes acompanhados pelos nossos filhos sempre que regressam dos países onde trabalham. Em casa, também temos uma máquina de Café. Contudo, não dispenso a ida ao Alentejano, dos raros que ainda não tem televisão, permintindo-me saborear o seu excelente café enquanto leio um livro ou escrevo
esta história.

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