Histórias de Café

“A chave vencedora”

No café O Hélder, em Usseira – Óbidos, o meu amigo de longa data António Rosa, depois de jantar ia todos os dias, “religiosamente”, beber o seu descafeinado. Delta, sem princípio. O Rosa era um homem de rotinas. Outra que ele tinha era, semanalmente, jogar no euromilhões e fazia-o com uma chave fixa há anos, à espera que a sorte, um dia, se lembrasse dele e lhe batesse à porta.

Acreditava que aqueles números, escolhidos com rigor, seriam o passaporte para mudar de vida. Quando ele via alguém a jogar no euromilhões com chaves sempre diferentes ou a colocar o pacote de açúcar inteiro no café Delta, lá vinham as suas teorias:
“Epá, mudas sempre os números do euromilhões, assim não vais ter sorte na vida!”
Ou então: “Epá, pões tanto açúcar no café, assim nem aproveitas os sabores desta vida!”
Ora acontece, que na semana do Carnaval, o seu grupo de “amigos” lá do café, lembrou-se de pregar uma partida ao Rosa.

Combinaram com o dono do café e descobriram quais eram os números escolhidos pelo Rosa, aqueles com que ele jogava, semana após semana. Na noite do sorteio, todos no café tinham apontado num pequeno papel a dita chave como sendo a vencedora e aguardavam, com expectativa, a chegada do Rosa. Quando ele entrou para tomar o seu Delta descafeinado, sem princípio, lá estava o grupo do costume a “confirmar” se haveria um excêntrico essa semana entre eles.

O Rosa, com a tranquilidade de quem segue uma rotina regularmente, até aí sem êxito, sem mostrar grandes expectativas, junta-se ao grupo e pede a chave vencedora. É-lhe entregue um pequeno papel e ele confirma os números. “Não pode ser!…” Fica incrédulo!… Volta a confirmar e o nervosismo apodera-se dele… Pede outro café Delta e os “amigos” entram ao ataque: “Ó Rosa, dois cafés?! Olha que não dormes esta noite!!”

“Isto é descafeinado!” – responde ele – “Dá cá esse papel e deixa-me lá ver bem esta chave vencedora!!!”
Os outros fazem um ar de espanto quando olham, desconfiados, para o boletim dele e exclamam, entusiasmados: “Ó Rosa, tu estás milionário! Ganhaste o euromilhões!!”


Começam todos aos gritos, a festejar. Um deles diz: “Sai uma rodada por conta do Rosa!”
Ele, a suar e ainda muito confuso, não discorda. Pede para conferir com outro “amigo” a chave vencedora e volta a confirmar que foi mesmo desta vez! A alegria é enorme e entra em euforia. A seguir vem mais uma rodada de cervejas à conta do Rosa, e mais outra e outra… A certa altura, o Hélder começou a ter pena do Rosa e decide contar-lhe a verdade… O pior é que a conta já ia bem alta… A conta do Rosa…
A euforia deu lugar à desilusão e todos os planos que já se começavam a formar na sua cabeça, desmoronaram-se como um castelo de areia… A partir desse dia o Rosa nunca mais quis saber de jogos de sorte (ou de azar…), mas a satisfação de saborear o seu descafeinado Delta, sem princípio, essa, ninguém lha vai tirar e vai acompanhá-lo para todo o sempre, no Café O Hélder, como habitualmente…

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